Resenha “O Crime do Padre Amaro”
Essa foi a primeira obra da literatura
portuguesa lida por mim e, apesar da grande quantidade de palavras e expressões
antiquadas, algumas até em desuso, surpreendeu-me a facilidade que o autor teve
em descrever seus personagens.
E mesmo em muitas das vezes precisando do
dicionário, a leitura fluía rapidamente, e com o tempo você acaba até se
acostumando com o palavreado popular da época. Principalmente no meu caso que
com o tempo de leitura me pego falando como os personagens do livro. Rs.
A história se passa no século XIX, na
cidadezinha de Leiria, próxima à Lisboa. E o enredo conta a história do romance
entre um padre e uma moça beata.
Grande parte das personagens são beatas e
eclesiásticos, dessa forma a religião católica está impregnada em cada página
do livro.
Amaro Vieira, protagonista, é um jovem
padre que teve a vida, desde que nascera, conduzida para o seminário pela
senhora que lhe cuidava. Sem mesmo saber se tinha vocação, o menino foi logo
moldado para tal destino. Aconteceu-lhe então quando a mocidade chegou. Viu-se
preso à batina com as vontades de um homem comum e não de um sacerdote de Deus.
Amélia, nossa outra protagonista, moça
beata, muito bonita e respeitada de Leiria. Viveu sempre cercada dos costumes
da igreja; vivia em meio a beatas e padres; era temente ao Deus castigador
pregado pelos religiosos e muito devota de Nossa Senhora das Dores que nunca
lhe negara favores.
Existiam algumas outras personagens
importantes na trama, como João Eduardo, liberal indignado com algumas atitudes
dos eclesiásticos. Estava para tornar-se noivo de Amélia, antes do pároco Amaro
chegar.
Tinha também o cônego Dias, padre-mestre de
Amaro, vivia uma vida de vaidades e foi cúmplice do crime.
Além das beatas que nunca perdiam uma fofoca
e nem negavam suas opiniões a ninguém.
A trama desenrola-se quando ao chegar em
Leiria, Amaro hospeda-se em casa de D. Joaneira, beata e mãe de Amélia.
O padre logo vê-se mergulhado numa paixão
desenfreada pela menina Amélia, essa que também cai da amores pelo pároco.
E mesmo indo contra tudo em que havia
baseado-se a sua educação, Amaro alimenta esse sentimento, tendo fortes
batalhas mentais muito bem descritas pelo autor, convencendo-se de que não está
cometendo um pecado. Começando assim a manipular como pode as pessoas para
conseguir viver seu romance. Mostra-se sujeito inescrupuloso, covarde e
totalmente entregue aos desejos da carne. Gozando em ter a rapariga sob seu
total controle.
Amélia, vendo-se numa paixão sôfrega pelo
pároco, mesmo com medo do pecado acaba caindo na lábia do padre, esse usando de
todos os artifícios possíveis para convencê-la da pureza e santidade do que
estavam fazendo. Aproveitando-se do papel de confessor da menina para induzi-la
ao pecado.
No entanto, com o tempo, apesar do fogo
que ardia entre eles, Amélia começa a ficar perturbada com o pecado e sente
Deus e os santos todos virando-lhe as costas.
Desenrola-se então uma serie de
acontecimentos que só comprova à moça a ira de Deus.
Apesar do livro girar sobre esse romance cheio
de pecado, ele mostra também como a igreja exercia influência sobre os devotos
na época. Muitos dos eclesiásticos agindo sem escrúpulos, manipulando a
população da maneira que lhes convinham. Além de esmagar todos que tentassem
revelar suas reais intenções e abrir os olhos dos crentes. Isso é mostrado
claramente no livro.
Mas acredito que Eça de Queirós não
estava criticando a igreja em si, mas o sistema político-social da época que
queria cegar e manipular as pessoas a seu favor. Até por que, aparece o abade
Ferrão para salvar a reputação dos padres que aparecem no livro, esse sim homem
digno de ser um sacerdote de Deus.
O livro vale muito à pena, mostra muito
da sociedade da época. Além de não dar vontade de parar de ler, página após
página querendo chegar ao clímax da história. Outra coisa muito interessante é
o sentimentalismo que nos toma a cada fato. Muitas vezes exclamei, xinguei e
vibrei com os acontecimentos narrados. Super recomendo!

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