domingo, 31 de maio de 2026

Depois do pôr do sol

Eu amo o pôr do sol. Olhar para aquelas cores alaranjadas, com uma brisa fresca no rosto, me dá paz. Mas tem sido um misto de paz e ansiedade. Eu sei que vai durar pouco, num instante as cores se vão e a noite chega.

Não que a noite seja ruim, mas vivemos na cidade, as luzes artificiais ofuscam a luz das estrelas. O céu só parece um pano preto e sem vida.

Quantas vezes na correria da vida, você consegue tirar tempo para assistir ao pôr do sol?

É, eu sei, a vida tem sido como um pôr do sol, tão rápida que está cada vez mais difícil só parar e apreciar. Sinto o mesmo misto de paz e ansiedade quando consigo tirar tempo para descansar ou para estar com as pessoas que eu amo. Quero me agarrar a esses momentos como eu queria que o pôr do sol parasse por alguns instantes.

Mas o tempo não pára, e quanta ansiedade isso me traz!

O medo de não aproveitar os momentos acaba me impedindo justamente de fazer isso. Então, vem o medo das mudanças, quando as coisas vão bem fico pensando em quando vão piorar. Quando estão ruim, fico esperando ansiosamente pela melhora.

Quão desgastante isso tem sido!

Um dia bom, sempre me traz um dia triste. Parece que a mente quer se antecipar a algo ruim. Sempre esperando a noite após o pôr do sol. Porque ela sempre chega. E esses dias ruins têm sido como as noites na cidade, as luzes artificiais não me deixam ver as estrelas. Essa luz excessiva gera ainda mais ansiedade e cansaço. São luzes brancas, não confortam como as luzes alaranjadas do pôr do sol.

31/05/2026
Natália Oliveira

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Cortes transversais

 Eu me lembrei daquela dor…

O aço raspando a pele. Para frente e para trás, rompendo preguiçosamente a superfície. Não era para ser rápido, mas longo e doloroso. O objetivo não era acabar com a dor, mas prolongá-la. Faltou coragem para ir fundo. Eu não tive coragem naquela época, muito menos agora. Não era esse o objetivo.

Mas não esqueço a sensação, a dor confortante, confrontando outra dor maior, uma que não era palpável, nem audivelmente explicável. Ninguém entendia. Mas era uma dor para abafar outra dor. Faz sentido?

“Eu vou contar.” - ela disse.

“Eu não vou fazer mais.” - respondi.

Alguém viu, alguém se importou. Isso bastou. Me salvou.


15-02-2026
Natália Oliveira

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Sangrando

 Eles vêm voando rápido.

Suas asas negras como a noite tampam a minha visão e me impedem de enxergar a luz que vem do alto.

Eles são barulhentos, seus gritos agudos tomam conta do silêncio e tiram a minha paz.

O farfalhar das suas asas causam um turbilhão, são muitos, e eles parecem brigar entre si. Parece um enxame de abelhas, mas são corvos. Um assassinato deles.

Aves necrófagas, querem me ver sangrar. Comer a minha carne e se banquetear das minhas vísceras.

Eu estou sangrando e não sei como estancar o sangue. O sangramento é interno, ninguém vê, ninguém pode ajudar. Mas eles sentem o cheiro do sangue, por isso voam em círculos sobre a minha cabeça, estão ansiosos.

Preciso me livrar deles para poder ver a luz. A luz que aquece, sara, cauteriza, cura. A luz que vem de cima.


Natália Oliveira

11-09-2025

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Prisão

Estou presa...

Muitos pensamentos se misturam na minha mente, querendo sair a todo custo, mas não consigo colocá-los para fora.
Sinto-os se amontoando como pilhas de jornais velhos, cheios de notícias.
Mas não são as notícias que eu gostaria de escutar, ou melhor, não são as que eu preciso ouvir.

Dia após dia a minha mente vai se enchendo de informações, vão se aglomerando, se juntando e não percebem estar contaminando, adoecendo tudo a sua volta.
Elas não entendem o significado de distanciamento social, assim como muitos dos que estão a minha volta.

Por dentro e por fora vou adoecendo, eu tento fugir mas estou presa, não só dentro de casa, mas estou presa dentro da minha própria mente, não posso fugir, estou na constante companhia do medo.

Ás vezes desconfio que a minha mente está tentando me ludibriar, tentando escapar de alguma forma, me fazendo esquecer palavras, memórias recentes, como me expressar.

Mas para onde?

Estamos todos presos aqui, sem ter como fugir dessa pandemia, ou pior, sem ter como fugir do declínio social, da ignorância, da falta de senso, da falta de amor, da falta de moral.

Só me resta resistir, por mais um dia... com uma força que não me pertence.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Resenha "Razão e Sensibilidade"

O primeiro livro que eu li de Jane Austen foi “Orgulho e Preconceito”, com uma narrativa descritiva, a autora se esforça em detalhar os sentimentos dos personagens e sua maneira de pensar. Não é diferente em “Razão e Sensibilidade”. Esse tipo de texto é interessante pois nos ajuda a compreender os sentimentos mais intrínsecos dos personagens, no entanto também exige bastante atenção na leitura que conta com longos parágrafos. Mas não é uma escrita tão rebuscada, que faz com que tenhamos que olhar um dicionário a todo momento, pelo contrário, ela flui tranquilamente.

Fazia um bom tempo que eu não pegava um livro para ler, no começo fiquei um pouco entediada, achei que a trama demorou para se desenrolar, mas com isso foi possível um bom desenvolvimento da personalidade das personagens principais, e ao ir me envolvendo na leitura, me familiarizando com as personagens comecei a entender o ponto principal da narrativa de Austen.

A história começa com a morte do patriarca da família Dashwood, que deixa sua segunda esposa, três filhas (Elinor, Marianne e Margaret) e um filho do primeiro casamento. No seu leito de morte, o Sr. Dashwood faz seu filho John prometer que não desamparará suas meias irmãs, visto que naquela época, as mulheres tinham pouco ou nenhum direito de herança.

O problema começa quando a egoísta esposa de John o induz a pensar que não é necessário dar tanta ajuda a suas meias irmãs, convencendo-o de que elas podem perfeitamente se virar com pouco e da necessidade deles mesmos se manterem em uma situação financeira agradável. As mulheres Dashwood acabam indo morar com um parente distante, que demonstra boa vontade em ajudá-las. Nesse novo local a trama começa a se desenrolar em meio a bailes, jantares, romances e um razoável círculo de amizade na nobreza inglesa.

Elinor e Marianne, são as filhas mais velhas da família Dashwood, e suas personalidades se encaixam perfeitamente no título do livro. Elinor é pura razão, prudente, reservada, pensa muito antes de demonstrar seus sentimentos, podendo até ser encarada como uma pessoa fria. Marianne é o oposto, muito parecida com a mãe, é passional e emotiva, demonstra claramente os seus sentimentos, e acredita que se os sentimentos não são demonstrados, não são sentidos. Apesar de seus extremos, as irmãs são muito parecidas em outros aspectos: são inteligentes, generosas e amigáveis.

Ao longo da história fica muito evidente como elas são opostas, como lidam com o amor, as amizades e as dificuldades que enfrentam de forma diferente, mas o que mais me tocou na história é que apesar de serem tão diferentes, elas têm profundo amor e consideração uma pela outra, o que com o tempo as faz se colocar uma no lugar da outra, resultando em certa medida de equilíbrio para suas personalidades, amenizando um pouco seus extremos. Uma aprendizagem mútua.

A história me surpreendeu e me envolveu tanto quanto o primeiro romance que li da autora. Uma história escrita a tantos anos atrás, mas que traz relatos perfeitamente atuais da personalidade humana, como as pessoas podem ser egoístas, interesseiras e falastronas, mas também fala sobre perdão, arrependimento e empatia, além, é claro, do amor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Crônica I - Grãos de café bem selecionados

É engraçado como nós aprendemos coisas novas todos os dias, como cada dia somado a nossa existência é decisivo para quem escolhemos ser no futuro. Vejo isso pelo fato de que em pouco mais de um ano minha vida deu uma cabalhota, eu redescobri tantas coisas que eu não quero retroceder nunca mais. (Sim, redescobri, pois eu já sabia, mas escondia de mim mesma.)

Finalmente reencontrei a estrada que eu tanto busquei. Digo estrada, pois encontrei no verbo viajar um significado de constância. Por isso vou fazer uma pequena comparação:
Eu sempre quis conhecer grandes metrópoles, sonhava alto, mas não no sentido bom da coisa, se é que você consegue me entender.
Agora eu sonho mais alto, só que agora sim no melhor sentido da expressão, viajar para mim agora é conhecimento, é observar o dedo poderoso do meu Deus em cada pedacinho microscópico deste planeta incrível que quero chamar de lar pela eternidade.

É incrível a oportunidade de ter vivido algumas experiências únicas na vida, resultado de um trabalho árduo. Mas se esse trabalho árduo não tiver o verdadeiro sentido, do que adiantou? É, com certeza somou experiência, mas será que experiências ruins contam? Não dá pra negar que sim, o famoso “aprender com os erros” tem o gosto amargo de um café, mas deixe que seja um café dos bons, daqueles que não deixam o amargor prevalecer na boca depois. Não digo isso querendo esquecer dos erros, mas para lembrar que existe uma redenção.
E quando você encontra essa redenção, aí sim o verdadeiro trabalho árduo vale cada minuto, porque traz sentido para a vida, traz verdadeiro significado.
E eu encontrei.
Agora sim a viagem vale a pena pois quando viajo, busco o que é de verdade.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Abraços não dados


Quando criança, nós muitas vezes achamos que os adultos são fortes, imunes ao sentimentalismo, a dor.
E aí nós crescemos e percebemos que os adultos também sofrem, choram e precisam de abraços.
Quantos abraços eu deixei de dar em você? Por timidez, por perceber o quão reservado você era, por medo de ser “estranho” abraçar em um lugar onde não era costume fazer isso.
Mas aí eu cresci e percebi que vocês também queriam abraços, então começamos a nos abraçar sempre é no começo foi até estranho, meio tímido, às vezes ainda é, mas agora só consigo pensar nos abraços que podia ter te dado e não te dei.
Agora fico buscando você nas suas coisas, num papel guardado, dobrado, amassado, na sua letra, querendo te conhecer mais, saber mais sobre você.
Nós - filhos, netos - somos um pouco egoístas em pensar que os nossos pais e avós não tiveram uma vida antes de nós. E agora tudo o que eu queria era conhecer mais você.
Sinto saudades todos os dias, não vejo a hora de te encontrar de novo, espero estar lá no novo mundo para que além de sua neta eu possa ser também sua amiga.