quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quando a inocência acaba


   
Eu tinha um sol. 
Ele iluminava todos os meus pensamentos mais profundos, sabia admoestar como nenhum outro.
   Eu estava aqui embaixo, admirando-o em toda sua magnitude, sonhando alcançá-lo algum dia. Seu ar senil exortava-me facilmente.
   Meus pezinhos infantis seguiam sua trilha, buscavam encontrar vestígios de que estivera por ali.
   Meu sol brilhava sobre um pedestal só para mim.
   Um dia meu sol caiu do pedestal e partiu-se em vários pedacinhos luminosos.
   Eu queria juntá-lo, colar seus cacos e fazê-lo voltar a brilhar para mim como antes. Mas descobri que aquilo não era mais possível.
   Eu só conseguia enxergar seus remendos, a luz não era mais a mesma.
   Foi nesse momento; o véu da fantasia caiu e a realidade ficou à vista.
   Seu brilho imperfeito chegou aos meus olhos e eu percebi como fui ingênua por tanto tempo.
   Meu sol era apenas mais um ser imperfeito como eu.

sábado, 25 de junho de 2016

Resenha - Uma praça em Antuérpia (Luize Valente)



“Uma praça em Antuérpia” é definitivamente um dos livros mais emocionantes que eu já li, sou um pouco suspeita de falar pois histórias retratadas durante a Segunda Grande Guerra são meu ponto fraco. Além de tudo, o fato da autora ser brasileira foi fundamental para aguçar ainda mais minha curiosidade. Mas não foi apenas isso que me encantou e impressionou nesse livro.
A história das gêmeas, Olívia e Clarice, me fez querer mergulhar de cabeça nesse romance histórico tão bem escrito e me fez ficar com um nó na garganta durante a maior parte da leitura.
O livro está dividido em 4 grandes blocos, a primeira parte é bem centrada, nada que tenha me empolgado tanto, mas o mistério que envolvia o final da jornada apresentada logo no início me deixou muito curiosa, queria saber que acontecimentos culminariam naquele fim.
O romance nos leva dos anos 2000 à 1916, em Portugal, onde nascera nossa protagonista. A história de uma vida desde o início marcado pela morte, mostrou a grande possibilidade dos “e se” que a nossa vida pode ser.
Olívia e Clarice sempre foram inseparáveis, até o momento no qual o início da vida adulta as separou pela primeira vez. Olívia fora a primeira a se casar e a se mudar da cidadezinha pequena onde nasceram e viveram. Clarice achava que nunca encontraria um amor como Olívia encontrara. Foi só quando o último laço sanguíneo das gêmeas se foi, Clarice mudou-se para a casa da irmã, em Lisboa, que essa encontrou o amor de uma vida.
Theodor era um pianista judeu comunista, nascido na Alemanha. Estava em Lisboa fugindo dos nazistas, seu primeiro encontro com Clarice foi o suficiente para despertar o amor no coração dos jovens.
Theodor e Clarice viveram sua história de amor, tiveram uma vida feliz em Antuérpia, uma cidade belga onde viviam muitos judeus e lapidadores de diamante. Mas a guerra não tardou em alcança-los no único lugar onde haviam sido realmente felizes. 
À partir daqui, a segunda parte, o romance cria um ritmo acelerado, você não consegue largar as páginas pois quer saber o destino dos personagens, você cria esperanças, expectativas, se solidariza, se revolta, enfim, tem uma outra percepção da guerra.
A Europa estava à beira do colapso, a autora fez questão de dar diversos detalhes referentes ao contexto histórico da época, isso deixou tudo mais autêntico e real. A forma como ela descreve os locais por onde eles passaram, o jeito como ela expressou os sentimentos dos personagens, todas as dificuldades passadas na fuga da família judia imposta pelo “rolo compressor” nazista, faz com que nossos olhos se encham d’água a todo momento.
Vimos como o nazismo e o antissemitismo tomou conta da Europa trazendo sofrimento a tantas famílias, mas vimos também o quanto as pessoas podem ser solidárias quando estão passando momentos de dificuldade, como um gesto amigo pode mudar uma vida.
Mesmo conhecendo o destino dos personagens desde o início, o final do livro me surpreendeu e me fez chorar mais uma vez. O livro não é muito conhecido, mas com certeza bate muitos best-sellers por aí. Leitura recomendadíssima.

por Natália Amaral

domingo, 5 de junho de 2016

Colapso mental

   Minha mente parece estar entrando em colapso, tenho sede de conhecimento e tenho pressa.
   As engrenagens estão trabalhando tão rapidamente que eu sinto com se a capacidade estivesse sendo super utilizada, estou ultrapassando os limites, meus pensamentos estão atropelando uns aos outros. Não consigo ser paciente para aprender uma coisa de cada vez, quero saber tudo ao mesmo tempo, quero o conhecimento de um ancião no corpo de um jovem.
   Quero conhecer o mundo, quero alcançar a lua na velocidade da luz, quero dar a volta ao mundo, conhecer outros costumes, outras línguas, quero um pedaço do mundo dentro de mim.
   Quero encontrar todas as resposta, resolver todos os problemas, saber usar a arte como forma de expressão, quero tocar o coração das pessoas, quero mais do que eu posso alcançar, quero o universo em uma casca de noz. Quero ser livre!


sábado, 9 de abril de 2016

Ao vovô, com carinho.



   Suas cãs são como uma coroa, a prova incontestável da idade e da experiência, as rugas, as marcas de expressão, as manchas no corpo, tudo isso faz parte de quem você é.
   Sua voz é baixa e calma, às vezes preciso fazer um grande esforço para te ouvir, mas seus olhos dizem tudo o que a boca não fala.
   Meu pescador amado, você me ensinou as vantagens de ser paciente e a beleza do silêncio. Li em algum lugar que as pessoas mais quietas são as que têm as mentes mais barulhentas, e deve ser mesmo verdade.
   Mesmo com pouco estudo, era leitor assíduo, me ensinou a beleza das palavras, a enxergar nos livros os caminhos para lugares distantes, tais quais não eram para qualquer um encontrar.
   Mostrou-me o mundo, é meu guardião, pai, avô, herói. Exemplo de homem honesto que eu nunca vi igual. Com uma vara de pescar nas mãos, mostrou-me como a vida é um rio de um curso só, não adianta lutar contra a correnteza, é preciso usá-la a próprio favor, assim como na pescaria.
   Ensinou-me o caminho de casa, para que se um dia eu me desviasse, eu soubesse para onde voltar, e eu estou voltando, por você.
   Querido avô, agora que suas lembranças já não estão tão boas, vou me lembrar sempre de estar aqui, pra te mostrar aquelas velhas fotografias das quais você tanto gosta e vou continuar registrando cada momento pela lente da minha câmera. Nunca vou me esquecer do seu conselho... "quando a juventude passa, tudo o que nos resta são as lembranças dos bons momentos que tivemos, rever as fotografias e relembrar sensações, pessoas, pensamentos."
   Tudo que me move hoje eu herdei de você, a paixão pelos livros, a paixão por registrar momentos e a paixão por guardar tudo que me remete a algum momento. Obrigada por me fazer ser quem eu sou, eu te amo.

Natália Oliveira

terça-feira, 8 de março de 2016

Transbordo



Quando o coração transborda as folhas em branco não são o bastante. O lápis entre os dedos trabalham rapidamente, minha voz fala alto nesse momento, os pensamentos eu nem sei de onde vêm, preciso externalizar tudo para não sufocar.
Como o auge de uma altercação, as palavras querem ser gritadas, não entendidas, apenas ouvidas.
Quando preciso abrir as comportas da represa a música é a chave, algumas letras e melodias invadem o recinto e logo começam e desfazer todos os nós encontrados pelo caminho.
Então tudo flui como a correnteza do rio, muitas vezes um misto de água salgada com água doce. Tenho o péssimo hábito de me expor chorando, não há controle sobre isso.
Então vou te falar mais um motivo para escrever, solidão. Quando me sinto sozinha tenho a necessidade de conversar com alguém, então eu converso comigo mesma. E que maneira melhor de expressão existe para uma conversa singular?
Reflexão da vida, vai tudo para o papel, imaginação funciona como nunca. Ideias malucas, coisas que nunca irão acontecer, mas no papel tudo pode, o papel tudo aceita.
As vezes aparecem aqueles momentos nostálgicos, todas aquelas lembranças de um tempo passado. Então eu conto tudo para mim mesma, ninguém mais vai pensar como eu, não quero a opinião de ninguém, só preciso contar minhas histórias, relembrar momentos. Perco tempo vendo velhas fotografias, pensando nas escolhas, ouvindo velhas músicas e colocando todos esses sentimentos no papel. 
Tudo isso só é importante para mim, só faz sentido para mim.

Natália Amaral