segunda-feira, 14 de maio de 2018

Saudade

Às vezes fico triste ao perceber que eu poderia ter feito algumas coisas diferentes no passado, mas aí eu paro e lembro que eu era jovem demais e jovens costumam agir como tolos na maioria das vezes.
Eu queria poder voltar lá trás e aproveitar mais o tempo com você, deixar assuntos fúteis de lado e te visitar mais vezes. Mas infelizmente nós passamos por alguns anos durante a adolescência e o começo da vida adulta em que imaginamos ser invencíveis e que não precisamos de nada além dos amigos.
O que me deixa triste é ter muitas lembranças desses anos vazios e poucas da infância, que foi quando eu mais estive com você. Queria ter aproveitado mais a sua sabedoria, mais os seus conselhos, estar simplesmente com você justamente nos anos mais marcantes do começo da minha vida adulta.
É verdade que eu ainda tive muitos anos com você, depois que eu passei por essa fase egoísta, me esforcei para estar sempre por perto, mas você já não tinha mais o vigor de antes e eu vi ano após ano seus tesouros serem tirados de você pela dolorosa velhice.
Agora o último inimigo a ser derrotado o roubou de mim, colocou-o em um sono profundo e eu não posso acordá-lo. O que me resta é vasculhar a memória atrás das lembranças de quando você ainda sabia quem eu era, pois até isso lhe foi tirado, a memória.
Mas não vou me esquecer das vezes que me levou para pescar, a última vez que fomos está bem viva na minha mente, pois eu sabia que momentos como aquele se tornariam extremamente raros, então eu tentei extrair tudo o que eu podia daquele momento com você.
Lembro de algumas conversas que tivemos, como quando você me contou sobre os últimos dias da sua mãe, ou quando você me contou por que confiava na palavra de Jeová e me aconselhou a nunca desistir de procurar a verdade, ou quando me disse o quanto estava triste por não conseguir mais ler ou usar a calculadora pois sua cabeça já não estava funcionando bem.
Quero lembrar da sua voz me chamando de preta, o apelido carinhoso que só você e a vó usavam, quero me lembrar da sua voz dizendo “taok”, quero me lembrar de você me mostrando algum dos seus livros que poderiam me ajudar em qualquer pesquisa, quero me lembrar de você cantando “Eu sou aquele amante a moda antiga, do tipo que ainda manda flores! E apesar da calça desbotada, ainda chamo de querida, a namorada!”, quero me lembrar de como você balançava a cabeça negativamente quando não gostava de alguma coisa, quero me lembrar da expressão com que você me olhava quando tinha acabado de colocar uma minhoca no meu anzol e eu logo de cara já perdia a minhoca para o peixe e não pegava nada e pedia para você colocar outra no anzol para mim, quero me lembrar das pedrinhas de açúcar que você me dava, quero me lembrar de você!
Eu queria poder me lembrar de muito mais, pois eu sei que teve muito mais, mas a minha mente imperfeita me prega peças dia e noite e é por isso que eu escrevo, para nunca esquecer. E também para aliviar a saudade que esmaga o meu peito por saber que não posso correr até sua casa para fazer uma visita, pois você não está mais lá. Preciso escrever para aguentar.
Eu queria que minhas memórias fossem como um hd dividido em pastas e que eu pudesse acessar cada uma delas sempre que quisesse, mas infelizmente não funciona como os flashbacks que vemos nos filmes, nossas lembranças são bem menos completas.
Mas no seu velório fiquei feliz de ver como você era querido pelas pessoas e como muitos te admiravam por ser um homem honesto, prestativo, paciente, não dado a discussões e reservado. Espero conseguir desenvolver algumas dessas qualidades e poder dizer que segui o exemplo do meu avô. Essa é a melhor herança que podemos deixar, o resto não importa.



Música: Keep Holding On
Avril Lavigne

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