Eu comecei a ler O Rouxinol por indicação de um amigo.
Ele me indicou esse livro pois sabia que eu tinha lido Uma Praça em Antuérpia e
tinha amado. O Rouxinol segue a mesma linha de Uma Praça em Antuérpia. Segunda
Guerra Mundial como plano de fundo, famílias desfeitas, pessoas lutando para
sobreviver em um momento em que o mundo não se importava com nada mais além de
comida e um teto para não passar frio. Mas acima de tudo, O Rouxinol é uma
história sobre amor e redenção, e como esses sentimentos ficam expostos durante
a guerra.
O livro conta a história de duas irmãs francesas,
Vianne e Isabelle Rossignol. Com a morte da mãe por uma doença, elas foram
enviadas ainda crianças para viver com uma desconhecida no interior, pois seu
pai, recém-chegado da guerra (Primeira Guerra Mundial) não conseguia lidar com
a morte da esposa e ainda por cima criar duas filhas.
Vianne rapidamente achou um jeito de lidar com a perda
da mãe e a ausência do pai, encontrou primeiro na amiga Rachel e depois no
marido Antoine a boia que a salva guardava de afundar, deixando assim a irmã de
lado.
Já Isabelle, a caçula, não conseguia entender a
rejeição do pai e depois da irmã e tornou-se uma rebelde, passou por diversos
internatos na França, muitas vezes fugia ou era expulsa. Sempre tentava voltar
para a casa do pai, mas ele sempre dava um jeito de mandá-la para longe.
A Segunda Guerra já tinha começado, muitos franceses
tinham indo para frente de batalha, porém, os franceses não estavam preocupados,
o governo pregava que a famosa linha Maginot
– linha de fortificação e defesa construída na fronteira entre a França e a
Alemanha – resistiria aos ataques alemães. O inesperado então aconteceu, a
linha Maginot ruiu e os alemães invadiram
a França.
Paris foi bombardeada e os parisienses logo se viram
em um êxodo para o mais longe possível dos alemães.
Em meio a uma guerra cada vez mais perigosa para os
franceses, Vianne e Isabelle se viram em uma teia de problemas antigos mal
resolvidos, ressentimentos infantis e ideias completamente diferentes do
significado de guerra para cada uma delas.
Vianne parecia não conseguir enxergar o que a chegada
dos alemães podia significar para o futuro e a segurança de sua família,
enquanto Isabelle muito infantil e arredia, não conseguia aceitar que a França
cedia à Alemanha, e queria desesperadamente encontrar um jeito de ir à luta.
Isabelle tinha duas opções, usar sua beleza para
benefício próprio e se manter segura e alimentada durante a guerra ou usar sua
beleza para ajudar a resistência francesa a avançar contra o inimigo.
Durante a ocupação alemã na França, os alemães
subestimaram muito a força das mulheres, um país onde a maioria de seus homens
fora feito prisioneiros de guerra, que resistência poderia ter contra um
inimigo forte como a Alemanha de Hitler?
Mas as mulheres foram as principais colaboradoras para
manter a resistência ativa, falsificavam documentos, entregavam mensagens,
escondiam pessoas, salvavam crianças.
Isabelle se tornou uma dessas mulheres, uma muito conhecida,
aliás, e procurada pelo governo alemão. Com o codinome de Rouxinol, ela ajudava
aviadores dos Aliados que caiam em terras francesas a se esconderem e a
chegarem em segurança à Espanha, no consulado britânico. Enfrentava frio, fome,
dores, tudo para colaborar com a resistência que ansiava e lutava por uma França
livre das garras dos nazistas.
Vianne demorou a perceber o mal que a guerra poderia
causar, e só entendeu à duras penas, sentindo na própria pele o mal causado
pelos inimigos. Viu o quanto a guerra podia destruir a humanidade das pessoas,
tornando-as cruéis.
O livro tem um desenrolar muito interessante, descreve
bem a arrogância alemã, o sentimento de impotência dos franceses diante dos
nazistas, a vontade no peito de franceses querendo lutar pela França, o medo de
ajudar outros, o medo de não poder fazer nada, a fome, o frio, as dores. E como
sempre, um assunto que não pode deixar de ser abordado em um livro ambientado
nesse período: a perseguição dos judeus.
E, além disso, enfatiza o papel da mulher na sociedade,
na guerra, no mundo e em seu próprio lar.
Posso dizer que esse livro me deixou com o coração na
mão em vários trechos e o final foi surpreendente e emocionante. Valeu muito a
pena, a leitura tem fluidez e aquela pitada de curiosidade pelo que acontecerá
no próximo capítulo.
Para refletir:
E quer saber por que eu gosto de histórias ambientadas
durante a Segunda Guerra Mundial? Porque ao ler essas histórias consigo
perceber o que o ser humano tem de pior e também o que tem de melhor. Humanos,
dois pratos da mesma balança, um lado capaz de ferir outro da mesma espécie por
prazer, ambição ou simplesmente por pura maldade, enquanto que o outro lado
tenta ajudar de todas as maneiras, mesmo mal tendo como se ajudar, fazem muito
pelo próximo.
Vai entender o que se passa na cabeça de cada um.
Hoje, olhando de um momento em que não estamos em guerra, não conseguimos entender como um ser humano pode ser tão ruim com outro. Mas e quando se está em
plena guerra? O que você seria capaz de fazer à pessoas que querem invadir sua
casa, roubar sua comida, machucar sua família? Quem é amigo? Quem é inimigo? Os
alemães são sempre os inimigos na maioria das histórias, mas o que os levou a
isso? Que tipo de lavagem cerebral um governo doentio fez na cabeça deles? Será
que suas famílias também não sofreram? Quem somos nós para julgar alguém?
por Natália Amaral

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